Do antigo office-boy aos programas de aprendizagem: o desafio é construir novas portas de entrada para os jovens no mercado de trabalho (Ilustração criada com ferramentas de IA)

Na década de 1970, muitos meninos já trabalhavam com carteira assinada aos 14/15 anos. Hoje, milhões de jovens não estudam nem trabalham. Isso não significa que devamos voltar ao passado — significa que precisamos construir uma ponte melhor para o futuro
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Marinaldo Cruz Filho
Há coisas que a memória insiste em guardar.
Algumas são importantes. Outras, nem tanto.
No meu caso, ela resolveu preservar, entre outras preciosidades, a lembrança de um adolescente baixinho, atravessando a capital paulista para ir trabalhar. Espremido dentro de um ônibus lotado, ele tentava não cair enquanto segurava livros, cadernos e uma marmita de alumínio embrulhada em jornal.
A marmita, aliás, merece um capítulo à parte.
Minha mãe colocava comida, naturalmente. Às vezes, até caldo de feijão. O problema era que o caldo, aparentemente dotado de vontade própria, frequentemente escapava pelo recipiente e ia parar na camisa.
Eu lavava a camisa no banheiro da empresa.
O cheiro de feijão, entretanto, parecia ter estabilidade no emprego.
Era 1974. Eu tinha acabado de completar 15 anos e morava com a minha família em São Caetano do Sul, no famoso ABC Paulista.
Hoje, contar isso exige uma explicação. Naquela época, não.
Eu era apenas mais um adolescente entrando no mercado de trabalho.
E talvez seja justamente por isso que vale contar essa história.
Não para defender que crianças voltem a trabalhar.
Não para dizer que o passado era melhor.
Muito menos para sugerir que a proteção conquistada pela Constituição de 1988 seja um erro.
Quero falar de outra coisa: do que colocamos no lugar daquele primeiro degrau que existia no caminho entre a escola e a vida profissional.
Porque o Brasil progrediu no quesito proteção às crianças e adolescentes. Mas ainda precisa evoluir bastante na forma de prepará-los para o mundo do trabalho.
E isso é especialmente urgente quando milhões de jovens estão no chamado grupo dos “nem-nem”.
O office-boy entra em cena
Minha primeira experiência profissional com Carteira Profissional assinada aconteceu aos 14 anos.
O cargo tinha um nome que hoje praticamente desapareceu: office-boy.
Era o sujeito encarregado de levar documentos, entregar correspondências, executar pequenos serviços externos e fazer uma quantidade razoável de coisas que atualmente são resolvidas com um clique.
O empregador era uma transportadora com sede no bairro do Pari, na fronteira entre a Zona Leste e a região central de São Paulo.
Eu saía de casa às 5h30 da manhã.
Atravessava boa parte da ainda “São Paulo da Garoa” em ônibus superlotado e chegava ao trabalho às 8h.
Metrô? Naquela época, era coisa de ficção científica.
No ônibus, eu passava boa parte da viagem em pé. Não exatamente por opção. Eu era pequeno demais para alcançar a barra do teto e precisava me agarrar onde fosse possível.
Na outra mão, livros e cadernos.
Debaixo do braço, a marmita.
E assim começava o dia.
Trabalhava durante o dia e estudava à noite.
No retorno, os congestionamentos cotidianos ajudavam a transformar uma simples viagem em uma expedição.
Mas havia uma compensação.
No sábado, não tinha aula e o expediente acabava às 13 horas.
E existia o grande evento do mês: o “Dia 10”. Assim mesmo, com letra maiúscula… devido ao caráter
Recebia Cr$ 300,00 — Cruzeiro era a moeda brasileira na época.
O dinheiro tinha vários donos antes mesmo de chegar à minha mão: minha mãe, minhas avós e o pagamento das passagens.
Se o salário caísse num sábado, sobrava eventualmente uma pequena fortuna para comprar um pão doce e tomar uma Crush — que, na época era um refrigerante famoso por ser feito de laranja de verdade.
Hoje, provavelmente, isso seria chamado de “experiência gastronômica”.
Na época, era simplesmente felicidade.
A vida melhorou quando mudei de empresa
Poucos meses depois, apareceu uma oportunidade muito melhor.
Por indicação de um primo da minha mãe, fui trabalhar na Brasinca S/A, uma metalúrgica de São Caetano do Sul. Infelizmente, a empresa encerrou as atividades no limiar do século 21.
Continuava sendo office-boy.
Mas parecia outro planeta.
O salário era quase o dobro.
A empresa tinha refeitório, ambulatório médico, biblioteca, plano de carreira e eventos culturais.
Para um garoto de 14 anos, aquilo era uma descoberta.
Eu podia ir e voltar do trabalho a pé.
Chegava em casa rapidamente, jantava, tomava banho e seguia para a escola.
Dois anos depois, veio a promoção para auxiliar de escritório.
Vieram também o aumento salarial e novas responsabilidades.
Ganhei um concurso literário promovido pela própria empresa. O prêmio em dinheiro permitiu que minha família comprasse a primeira máquina de lavar roupas.
Recebi também um livro autografado por Érico Veríssimo.
Esse continua comigo.
A máquina de lavar, felizmente, também cumpriu muito bem sua missão.
Fiquei quatro anos na empresa.
Quando passei no vestibular e precisei me mudar para Sorocaba, estava prestes a receber outra promoção.
Até o cursinho pré-vestibular foi pago pelo chefe do departamento em que eu trabalhava.
Ou seja: aquela experiência não me deu apenas um salário.
Ela me deu uma trajetória.
E eu não era exceção
É aqui que minha memória individual começa a se encontrar com a história social de uma geração.
Trabalhar cedo era comum.
Em cidades industriais, principalmente, adolescentes começavam em funções simples e estudavam depois do expediente.
Office-boy era uma porta de entrada.
Ajudante de oficina era outra.
Havia balconistas, auxiliares, aprendizes, trabalhadores do comércio, da indústria, dos serviços e da agricultura.
Muitos começavam em tarefas simples.
Alguns ficavam nelas.
Outros cresciam.
O menino entrava como office-boy e, algum tempo depois, podia virar auxiliar de escritório.
Depois, escriturário.
Mais adiante, supervisor.
Não acontecia com todos, evidentemente.
Mas havia uma perspectiva.
E havia uma coisa que hoje parece cada vez mais rara: a empresa também podia ser um lugar de formação.
Não era uma formação perfeita.
Nem sempre era justa.
Não havia a proteção que existe hoje.
A fiscalização era muito mais frágil.
Algumas crianças e adolescentes eram submetidos a situações que atualmente reconhecemos, corretamente, como exploração.
É preciso dizer isso para não transformar memória em propaganda.
Minha história é uma recordação pessoal, não uma prova de que trabalhar cedo fazia bem a todo mundo.
Mas ela também é uma lembrança de que o trabalho podia funcionar como uma ponte de integração social e profissional.
A Constituição colocou um limite necessário
Em 1988, o Brasil mudou a regra do jogo.
A Constituição estabeleceu a proibição do trabalho antes dos 16 anos, permitindo a condição de aprendiz a partir dos 14.
O Estatuto da Criança e do Adolescente, dois anos depois, reforçou essa proteção.
Foi um avanço.
E continua sendo.
Não há nada de progressista em achar normal que uma criança deixe de estudar para trabalhar.
Não há romantismo possível diante de exploração.
Uma coisa é um adolescente participar de um programa protegido de aprendizagem.
Outra, completamente diferente, é uma criança ser colocada para trabalhar porque a família precisa daquele dinheiro para ajudar na renda conjunta.
Misturar essas duas situações é um erro.
Mas existe outro erro do lado oposto: imaginar que, ao proibir o trabalho precoce, o problema da inserção profissional do jovem desaparece.
Não desaparece.
Ele apenas muda de lugar.
O problema é que o mundo também mudou
Enquanto a legislação mudava, a tecnologia fazia uma revolução silenciosa.
E talvez ninguém tenha percebido isso melhor do que o próprio office-boy.
Primeiro veio o fax.
Depois, o computador.
A internet.
O e-mail.
A telefonia móvel.
Os aplicativos de mensagens.
Os sistemas corporativos.
A assinatura digital.
Hoje, uma pessoa pode mandar para outra, em segundos, um documento que, no meu tempo, exigiria uma viagem de ônibus.
A solicitação de compras que eu levava fisicamente agora chega instantaneamente ao celular.
A carta que precisava de envelope e mensageiro virou e-mail.
O documento que atravessava a cidade agora atravessa a internet.
O office-boy não foi apenas derrotado pela Constituição. Foi derrotado pelo fax, pelo computador, pelo e-mail e, finalmente, pelo WhatsApp.
A tecnologia eliminou milhares de tarefas simples que funcionavam como porta de entrada para o mercado.
E isso trouxe uma consequência que raramente aparece na discussão sobre juventude e trabalho: o mercado ficou mais protegido, mas também ficou mais exigente.
Antes se aprendia fazendo
Quando comecei, ninguém esperava que eu chegasse sabendo trabalhar.
Eu precisava aprender.
Aprendia a chegar no horário.
Aprendia a falar com as pessoas.
Aprendia a entregar documentos.
Aprendia a obedecer instruções.
Aprendia a assumir responsabilidades.
Depois, outras portas se abriam.
Hoje, o jovem encontra uma situação diferente.
Muitas vagas exigem experiência.
Conhecimento de informática.
Ferramentas digitais.
Comunicação.
Inglês em determinados setores.
Qualificação técnica.
Certificados.
E, naturalmente, experiência.
Surge então uma pergunta que parece simples, mas não é:
Como o jovem adquire experiência se precisa ter experiência para conseguir a primeira oportunidade?
É justamente aí que entram os programas de aprendizagem e estágio.
O Brasil inventou uma nova porta
A Lei da Aprendizagem, de 2000, criou uma alternativa muito mais adequada aos tempos atuais.
O jovem aprendiz pode entrar no mercado dentro de um contrato especial que combina prática profissional e formação.
O estágio, regulamentado pela Lei nº 11.788/2008, cumpre papel semelhante para estudantes do ensino médio, técnico e superior.
A lógica é muito interessante.
Em vez de simplesmente colocar o adolescente para trabalhar, a proposta é ensinar enquanto ele trabalha.
É a velha ideia do “aprender fazendo”, mas com outra roupa.
Uma roupa muito mais adequada ao século 21.
Em 2025, segundo levantamento que fiz na internet, o Brasil chegou a 715.277 jovens aprendizes ativos.
Entre janeiro e novembro daquele ano, foram firmados 118.244 novos contratos.
A indústria, os serviços e o comércio aparecem entre os principais setores responsáveis pelos novos vínculos.
São números importantes.
Mas ainda insuficientes diante do tamanho do desafio.
O número que deveria nos incomodar
Existe outro dado que não pode ser ignorado.
Aproximadamente 2,7 milhões de jovens de 15 a 29 anos estavam, em 2024, na condição conhecida como “nem-nem”: não estudavam e não trabalhavam.
É preciso tomar cuidado com o rótulo.
“Nen-nem” não significa necessariamente jovem preguiçoso, desinteressado ou acomodado.
Por trás dessa estatística existem pobreza, desigualdade, falta de oportunidades, abandono escolar, responsabilidades familiares, dificuldades de transporte, desânimo e uma série de outros fatores.
Ainda assim, o fenômeno existe.
E é grande.
Enquanto minha geração tinha uma cultura na qual começar a trabalhar cedo era praticamente parte do roteiro da adolescência, uma parcela expressiva da juventude atual enfrenta justamente o problema oposto: não consegue encontrar uma porta de entrada.
Essa comparação não significa que uma coisa seja causa da outra.
Mas deveria nos fazer pensar.
De 40% para 4,3% — mas cuidado com a comparação
Os números históricos ajudam a dimensionar a mudança.
Estimativas apontam que aproximadamente 40% dos adolescentes de 15 a 17 anos trabalhavam na década de 1970.
Hoje, a estatística é muito diferente.
O IBGE registrou, em 2024, 1,65 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil, correspondendo a 4,3% dessa população.
Mas aqui cabe uma advertência importante: não estamos comparando exatamente a mesma faixa etária nem necessariamente o mesmo conceito estatístico.
Portanto, seria irresponsável afirmar simplesmente que “o trabalho juvenil caiu de 40% para 4,3%”.
Não é isso que os números permitem dizer.
O que eles mostram é uma mudança gigantesca na relação entre adolescência e trabalho.
E essa mudança foi provocada por legislação, escolarização, transformações econômicas e, também, tecnologia.
O passado tinha outro problema
Há ainda uma tentação perigosa nessa discussão: comparar a violência juvenil de hoje com as lembranças de quem viveu os anos 1970.
Minha memória diz que eu não ouvia falar de violência envolvendo jovens com a frequência de hoje.
Drogas também pareciam uma realidade distante.
Mas memória não é estatística.
E não seria correto concluir, apenas pela minha experiência, que a juventude daquela época era necessariamente mais segura.
A antiga FEBEM, hoje Fundação Casa, também recebia adolescentes em situações que envolviam pobreza, abandono e aquilo que a legislação da época classificava como “situação irregular”, além de atos infracionais.
O modelo institucional era outro.
A sociedade era outra.
Os registros eram outros.
Comparar diretamente uma internação da FEBEM dos anos 1970 com um homicídio de jovem registrado atualmente seria misturar coisas diferentes.
Ainda assim, há um dado contemporâneo impossível de ignorar.
O Atlas da Violência registrou 21.856 homicídios de jovens de 15 a 29 anos em 2023, com taxa de 46,6 mortes por 100 mil habitantes.
O número não diz que esses jovens estavam envolvidos com o crime.
Muitos eram vítimas.
E esse talvez seja um dos aspectos mais tristes da estatística.
O jovem brasileiro aparece na violência não apenas como autor de atos infracionais, mas também — e em enorme quantidade — como vítima.
Trabalho não é vacina contra o crime
Aqui também é preciso evitar atalhos.
Seria absurdo dizer que colocar adolescentes para trabalhar resolveria a violência.
Não resolve.
Trabalho não é vacina contra o crime.
Nem emprego, sozinho, substitui educação, família, segurança pública, políticas sociais e oportunidades.
Mas existe algo que não podemos ignorar.
Um jovem que estuda, participa de um programa de formação, convive com profissionais, aprende uma atividade, recebe orientação e começa a construir um projeto de futuro está inserido em redes sociais e profissionais que podem ser importantes.
Isso não garante nada.
Mas pode fazer diferença.
E justamente por isso a aprendizagem profissional deveria ser encarada como uma política de inclusão, e não apenas de emprego.
A empresa precisa parar de procurar só o profissional pronto.
Há uma contradição no discurso empresarial que merece ser enfrentada.
De um lado, ouvem-se reclamações sobre falta de trabalhadores qualificados.
De outro, frequentemente se procura alguém que já chegue pronto.
Mas quem forma o profissional que ainda não existe?
Se toda empresa esperar que outra empresa faça a formação, teremos um problema coletivo.
Na minha experiência, a Brasinca não apenas me deu um emprego.
Ela me ensinou.
E, ao me ensinar, também construiu um trabalhador que poderia continuar crescendo dentro da organização.
É verdade que saí para fazer faculdade em outra cidade.
Mas isso não significa que o investimento tenha sido perdido.
Uma empresa que forma jovens não está fazendo caridade. Está formando gente que pode fazer parte do seu próprio futuro.
Esse raciocínio precisa voltar a ganhar força.
O governo não pode apenas criar programas
Também não basta lançar programas de aprendizagem e anunciar números.
É necessário garantir qualidade.
A vaga precisa chegar ao jovem que realmente precisa dela.
A formação precisa ter utilidade.
O acompanhamento precisa existir.
Escola e empresa precisam conversar.
Os municípios precisam participar.
Transporte e acesso digital precisam ser considerados.
E os resultados precisam ser medidos.
Não adianta abrir uma vaga de aprendiz que não ensina nada.
Assim como não adianta oferecer um curso que não dialogue com nenhuma oportunidade real.
Aprendizagem profissional não pode ser estacionamento de adolescente.
Precisa ser caminho.
E a escola?
A escola também não pode lavar as mãos.
Não estou defendendo que a educação se transforme numa agência de empregos.
Longe disso.
A escola deve continuar formando cidadãos, desenvolvendo pensamento crítico, conhecimento científico, cultura e capacidade de compreender o mundo.
Mas o mundo do trabalho faz parte desse mundo.
Ignorá-lo não protege o estudante.
Pode deixá-lo despreparado.
Ensino técnico, orientação profissional, projetos práticos, contato com empresas, laboratórios e programas de aprendizagem podem aproximar o estudante da realidade sem transformar a escola em linha de montagem de trabalhadores.
O desafio é equilíbrio.
O perigo dos dois extremos
Talvez a discussão sobre idade mínima para trabalhar esteja presa numa armadilha.
De um lado, quem olha para o passado e diz: “Na minha época todo mundo trabalhava e ninguém morreu por isso.”
Do outro, quem responde: “Qualquer trabalho antes dos 16 anos é exploração.”
As duas frases são simplificações.
Na minha época, muita gente trabalhou e construiu boas carreiras.
Também houve exploração.
Também houve abandono escolar.
Também houve crianças em condições inaceitáveis.
Hoje, temos leis melhores.
Temos mais proteção.
Temos programas de aprendizagem.
Temos uma sociedade mais consciente.
Mas temos também milhões de jovens que não encontram seu lugar nem na escola nem no trabalho.
Não precisamos escolher entre esses dois erros.
Precisamos construir uma terceira via
Não quero meu passado de volta.
Aos 14 anos, eu trabalhava porque aquele era o mundo em que vivia.
Hoje, se tivesse a mesma idade, deveria ter acesso às proteções que a sociedade conquistou.
Mas isso não significa que deveria ficar sem contato com o mundo profissional.
Deveria poder aprender.
Experimentar.
Conhecer profissões.
Desenvolver habilidades.
Ter um mentor.
Participar de um programa de aprendizagem.
Fazer um curso técnico.
Estudar.
E, no momento adequado, entrar no mercado com alguma experiência e muito mais proteção do que eu tive.
Essa é a terceira via.
Nem trabalho infantil, nem juventude abandonada à própria sorte.
A minha marmita não precisa voltar
Quando lembro daquele garoto de 14 anos, a imagem mais engraçada talvez seja a marmita.
Aquele pequeno recipiente de alumínio embrulhado em jornal, sempre ameaçando transformar minha camisa em uniforme aromático de feijoada.
Mas, por trás da cena engraçada, havia algo importante.
Eu tinha um caminho.
Comecei numa função simples.
Fui para uma empresa melhor.
Fui promovido.
Ganhei um concurso.
Recebi apoio para estudar.
Fiz amigos.
Aprendi uma profissão.
E saí dali para seguir outro projeto.
Não estou dizendo que todos os adolescentes deveriam passar pela mesma experiência.
Estou dizendo que todos os adolescentes deveriam ter direito a alguma experiência que lhes permita enxergar um futuro.
Essa experiência hoje não precisa ser um office-boy atravessando São Paulo com uma pilha de documentos.
Graças à tecnologia, esse emprego praticamente desapareceu.
Pode ser um jovem aprendiz aprendendo tecnologia.
Pode ser um estudante num curso técnico.
Pode ser um estagiário participando de um projeto.
Pode ser uma formação profissional conectada às necessidades reais de uma empresa.
Pode ser algo que ainda nem inventamos.
O que não podemos aceitar é que a sociedade tenha eliminado as antigas portas de entrada sem construir portas novas em quantidade suficiente.
O verdadeiro debate
A discussão, portanto, não deve ser simplesmente:
“Devemos reduzir a idade mínima para trabalhar?”
Para mim, essa é uma pergunta pobre diante de um problema muito maior.
A pergunta necessária é:
“O que estamos fazendo para que nossos jovens cheguem ao mercado de trabalho preparados, protegidos e com perspectiva?”
Essa pergunta envolve empresas.
Governos.
Escolas.
Famílias.
Sindicatos.
Entidades de formação.
E a sociedade inteira.
Porque o jovem que não encontra oportunidade hoje será o trabalhador que amanhã alguém dirá que “não tem experiência”.
E aí voltamos ao começo da história.
Como adquirir experiência sem ter oportunidade?
O office-boy acabou. A responsabilidade ficou
O mundo que produziu o office-boy acabou.
A máquina de escrever virou peça de museu.
O fax virou relíquia.
O documento físico virou arquivo digital.
O recado virou mensagem instantânea.
E a inteligência artificial já começa a fazer com algumas profissões aquilo que o computador fez com outras.
O mercado continuará mudando.
Por isso, não podemos preparar nossos jovens para o mercado de ontem.
Precisamos prepará-los para o mercado de amanhã.
A Constituição de 1988 estabeleceu uma proteção necessária.
Agora precisamos cumprir a outra metade do compromisso.
Proteger não é apenas impedir que o jovem seja explorado. É garantir que ele tenha condições de construir autonomia.
Minha geração encontrou uma porta, embora ela fosse estreita, desconfortável e muitas vezes injusta.
A geração atual merece uma porta melhor.
Mais segura.
Mais justa.
Mais moderna.
E muito maior.
Não precisamos trazer de volta o garoto com a marmita de alumínio.
Precisamos apenas garantir que, quando ele olhar para a frente, consiga enxergar uma porta aberta.
Porque juventude sem exploração é uma conquista. Juventude sem oportunidade é um problema. E entre uma coisa e outra existe uma ponte que o Brasil ainda precisa terminar de construir.
Fonte consultada: Estatuto da Criança e do Adolescente

Marinaldo Cruz Filho – Jornalista e editor de TodosPodem.org – Reflete sobre o comportamento humano, as mudanças sociais e o impacto das tecnologias na vida cotidiana
(As opiniões expressas nos artigos publicados no portal Todos Podem são de inteira responsabilidade
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