Orientações do guia são apoiadas em estudos conduzidos em diferentes países (FOTO: Freepik)

Livro digital traz orientações práticas para famílias com filhos de até seis anos, incluindo limites de tempo, escolha de vídeos e cuidados com o sono e o desenvolvimento infantil
Um guia digital gratuito desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) reúne orientações práticas para ajudar pais e responsáveis sobre o uso de telas por crianças. A proposta é equilibrar o tempo de exposição a celulares, tablets, televisores e outros dispositivos digitais por crianças de até seis anos. Com 32 páginas e linguagem acessível, a publicação busca facilitar a criação de limites e a escolha de conteúdos adequados à primeira infância.
Lançado em setembro, o livro Crescendo em um mundo digital: Um guia para o uso saudável de telas por crianças pré-escolares está disponível para leitura e download gratuitos no Portal de Livros Abertos da USP. O trabalho teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Além de reunir recomendações baseadas em estudos realizados em diferentes países e em diretrizes de organizações internacionais de saúde e pediatria, o material considera as dificuldades enfrentadas pelas famílias para conciliar a tecnologia com a rotina doméstica.
Como limitar o uso de telas em casa
Entre as principais recomendações estão estabelecer limites e rotinas para o uso de dispositivos, reservar períodos do dia sem telas e evitar que as crianças utilizem celulares e outros aparelhos durante as refeições ou antes de dormir.
Embora algumas orientações exijam mudanças nos hábitos familiares, os pesquisadores reconhecem que os pais enfrentam uma rotina sobrecarregada e que as crianças têm contato cada vez mais precoce com dispositivos digitais. Além disso, os recursos das plataformas são frequentemente desenvolvidos para estimular a permanência dos usuários diante das telas.
Por isso, o guia não propõe eliminar a tecnologia da infância, mas incentivar um uso mais consciente, seguro e compatível com as necessidades de desenvolvimento das crianças.
“A segurança digital das crianças depende de uma parceria: a tecnologia faz a filtragem inicial, mas são os pais e professores, no dia a dia, que orientam o olhar das crianças para transformar a tela em uma ferramenta de lazer seguro e de conhecimento”, resume Rafael Julio Magrini Cunha, doutorando em Psicobiologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP e coautor da publicação.
Escolha bem os vídeos e acompanhe a criança
Outra recomendação importante é selecionar conteúdos apropriados à idade, com ritmo moderado e sem violência ou publicidade. Os autores também defendem a chamada mediação ativa, prática em que pais e responsáveis assistem aos programas junto com as crianças e conversam sobre o que estão vendo.
Dessa maneira, o adulto pode ajudar a criança a compreender o conteúdo, esclarecer dúvidas e identificar informações inadequadas.
O guia apresenta, ainda, critérios práticos e perguntas que ajudam a avaliar se um vídeo realmente tem valor educativo. A proposta é evitar que as famílias considerem automaticamente instrutivo qualquer conteúdo divulgado como “educativo”.
Excesso de telas pode afetar o desenvolvimento
Segundo o material, o uso excessivo de dispositivos pode reduzir as oportunidades de interação social e de atividades físicas, experiências fundamentais nos primeiros anos de vida.
Como consequência, o desenvolvimento da linguagem e de habilidades cognitivas, motoras e socioemocionais pode ser prejudicado. O sono também merece atenção, especialmente quando as telas fazem parte da rotina antes de dormir.
Além do tempo de exposição, os pesquisadores alertam para os possíveis efeitos dos conteúdos consumidos. Vídeos com violência, ritmo acelerado, publicidade disfarçada e formatos muito curtos, como os shorts do YouTube e os vídeos do TikTok, podem afetar a atenção e a memória.
Esses formatos também podem incentivar o consumo, dificultar o controle dos impulsos e reduzir a tolerância à frustração. Por isso, a escolha do que a criança assiste é tão importante quanto estabelecer limites para o tempo de uso.
Por que os pesquisadores criaram o guia
A publicação foi desenvolvida por Andréia Schmidt, professora do Departamento de Psicologia da FFCLRP da USP, em conjunto com sua equipe do Laboratório de Estudos Básicos e Aplicados em Análise do Comportamento (Lebac).
O trabalho está vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE) e reúne conhecimentos acumulados em pesquisas conduzidas pela equipe e por outros pesquisadores em diferentes países.
De acordo com Ana Julia do Nascimento Silva, doutoranda em Psicobiologia na FFCLRP e coautora do guia, a experiência de pesquisa do laboratório revelou três dificuldades recorrentes enfrentadas pelas famílias na era digital.
A primeira é conciliar o uso da tecnologia com as atividades cotidianas. “Ao longo de nossas pesquisas, identificamos que equilibrar a rotina e garantir um uso saudável da tecnologia é um desafio constante para os pais”, afirma.
A segunda dificuldade é encontrar informações confiáveis em meio à grande quantidade de conteúdos disponíveis na internet. Janine Albuquerque Nogueira, mestranda em Psicobiologia na FFCLRP e também coautora, observa que os cuidadores se preocupam com o tema e procuram orientação, mas nem sempre conseguem identificar recomendações fundamentadas em evidências científicas.
Por fim, existe o desafio de transformar o conhecimento em atitudes concretas. Segundo Ana Julia, muitas famílias não têm acesso direto à produção acadêmica e, mesmo quando encontram informações relevantes, podem ter dificuldade para aplicá-las no dia a dia.
Assim, o objetivo do livro é aproximar o conhecimento científico da realidade doméstica, oferecendo ferramentas que ajudem pais e responsáveis a tomar decisões mais conscientes sobre a relação das crianças com a tecnologia.
Dicas para as famílias
Para colocar as orientações em prática, os responsáveis podem começar com pequenas mudanças na rotina:
- Estabeleça limites: defina horários e períodos para o uso de celulares, tablets e televisores.
- Crie momentos sem telas: priorize as refeições, as brincadeiras presenciais e outras atividades compartilhadas.
- Proteja o sono: evite o uso de dispositivos antes de dormir.
- Escolha conteúdos adequados: prefira vídeos compatíveis com a idade, com ritmo moderado e sem violência ou publicidade.
- Assista junto com a criança: acompanhe os programas e converse sobre o que está sendo apresentado.
- Questione o rótulo educativo: verifique se o conteúdo realmente ensina algo relevante ou apenas utiliza essa classificação para atrair o público infantil.
- Não dependa apenas dos controles digitais: ferramentas de filtragem e restrição são úteis, mas precisam ser acompanhadas pela orientação de adultos.
Serviço: guia gratuito da USP

Capa do livro disponível para download gratuito – (FOTO: Portal de Livros Abertos da USP)
Publicação: Crescendo em um mundo digital: Um guia para o uso saudável de telas por crianças pré-escolares.
Formato: livro digital com 32 páginas e linguagem acessível.
Público-alvo: pais, responsáveis e outros cuidadores de crianças de até seis anos.
Acesso gratuito: leia ou baixe o guia no Portal de Livros Abertos da USP.
Instituições envolvidas: Universidade de São Paulo (USP), Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento,
Cognição e Ensino (INCT-ECCE) e Laboratório de Estudos Básicos e Aplicados em Análise do Comportamento (Lebac).
Apoio: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Agência SP | Adaptado por TodosPodem.org
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