Em muitos casos, ensinar conteúdo curricular é apenas parte da tarefa (Ilustração criada com IA)
Em territórios vulneráveis, o educador aprende tanto quanto ensina — sua identidade se refaz entre desafios sociais, empatia e o cotidiano que também educa
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Fernando Jorge Moreira
Oque significa ser professor em territórios marcados pela desigualdade e vulnerabilidade social? A resposta para essa pergunta não é simples e vai muito além do que é estabelecido pelo senso comum que aponta apenas para o domínio de conteúdos, metodologias ou diretrizes curriculares. Em contextos de maior fragilidade social, o exercício da docência se torna também um processo contínuo e não linear de reconstrução da própria identidade profissional.
Durante muito tempo, o professor foi visto como o detentor de um “saber” que deveria ser transmitido ao estudante. Essa simplificação do papel do docente ocorre até os dias de hoje, pois quem está de fora do processo educacional não tem noção de todos os meandros que envolvem a atuação do professor. Tampouco sabe quais desafios são enfrentados no dia a dia em escolas que atendem a públicos distintos. Ao contrário do que se imagina, o professor atua muito mais como um elemento formador, que tem como ofício educar por meio de uma prática que atravessa os contextos sociais e as relações estabelecidas nesses contextos.
Não é incomum que, durante suas carreiras, professores se removam para diferentes unidades escolares. Educadores de escolas públicas, muitas vezes, trabalham concomitantemente em escolas particulares e vivenciam realidades completamente distintas em cada um desses locais. Considerando esse cenário, é possível dizer que a prática do educador é a mesma nos diferentes locais e contextos em que trabalha? Será que o território tem impacto sobre os processos de construção da identidade desses docentes?
É possível que essas questões levantadas não façam parte da vida da maioria dos professores. Talvez, pela quantidade de demanda, os professores sequer tenham tempo de pensar e problematizar tais situações. A educação e a forma de educar têm se transformado com o passar dos anos e o professor parece estar cada vez mais sendo “engolido” por imposições e posições de diferentes governos em suas trajetórias. Contudo, é importante que se saliente que para além do currículo e das políticas educacionais, há um elemento que atravessa a educação de maneira global e sistemática e que, ainda assim, parece pouco discutido: o território também forma o professor.
A dissertação de mestrado intitulada Os processos de (re)construção da identidade docente em territórios vulneráveis: um estudo de caso, defendida no ano de 2024, na Faculdade de Educação da USP, teve como objetivo principal investigar como o professor da escola pública localizada em territórios vulneráveis percebe e reflete a respeito de sua identidade. Os resultados indicam que esses docentes vivenciam tensões constantes entre o que é esperado institucionalmente e aquilo que a realidade concreta exige. Isso porque territórios vulneráveis demandam que os educadores assumam múltiplos papéis, que vão desde mediador de conflitos, passando pela articulação entre as obrigações da escola e os anseios da comunidade, sendo referência afetiva ou mesmo suporte para o enfrentamento de situações complexas que podem ocorrer com os estudantes.
Esse conjunto de demandas redefine o sentido da docência, deslocando-a de uma função estritamente pedagógica para uma atuação profundamente humana e relacional. Essa reconfiguração de prática impacta diretamente sobre a construção identitária de docentes que, sendo novos ou antigos de casa, aparentam perceber-se de maneira bastante característica. Ou seja, ambientes vulneráveis direcionam os professores para um “lugar” de empatia, no qual a percepção das necessidades dos sujeitos atendidos pela unidade escolar transforma a ação docente.
Além disso, houve a identificação de um traço identitário recorrente entre os professores e que tem ligação direta com as demandas do território: a maior parte dos educadores entrevistados parece perceber os estudantes como quem precisa de ajuda. Os professores entrevistados relataram, ainda, uma grande dificuldade em ressignificar a prática docente no sentido de minimizar as necessidades dos estudantes e fazer com que eles, de certa forma, ignorem a condição em que se encontram e venham para a escola com o único propósito de estudar.
O que podemos aprender com isso?
Em linhas gerais, o estudo nos mostra que, em territórios vulneráveis, os processos identitários se intensificam e exigem dos professores constantes adaptações, tendo de negociar e ressignificar sua prática e seu comportamento. A identidade docente não é, portanto, estática ou definida previamente. Ao contrário, o processo de construção identitária docente é complexo e dinâmico, construído por meio das experiências vividas e das trocas diárias em ambientes e condições de trabalho concretas.
Se pensarmos de maneira holística, começaremos a entender que há, nesse cenário, implicações importantes que perpassam, inclusive, o modelo de formação docente vigente. Isso porque ainda são raras as propostas formativas que consideram a importância do território na construção da identidade do sujeito-professor. Isso traz uma perspectiva perigosa de uma formação idealizada e cada vez mais distante dos desafios reais da profissão.
Além disso, é importante que se calcule os efeitos desses desafios na saúde mental dos educadores. Isso porque a sobrecarga emocional, a pressão institucional, as demandas excessivas somadas às condições adversas de trabalho podem gerar desgaste, afetando não só o desempenho profissional desses professores, mas, sobretudo, seu bem-estar e sua saúde.

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Fernando Jorge Moreira, doutorando da Faculdade de Educação da USP
Texto publicado originalmente no Jornal USP





















