A travessia de gerações (Ilustração criada com ferramentas de Inteligência Artificial)
A despedida de meu pai me ensinou que cuidar dos idosos exige informação, paciência, planejamento e, acima de tudo, compreensão. Também me fez perceber que todos nós precisamos aprender a envelhecer
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Marinaldo Cruz Filho
Nunca havia me permitido pensar seriamente sobre como seria perder meus pais.
Talvez porque eles sempre estivessem ali. Como acontece com quase todo filho, a presença deles parecia fazer parte da paisagem da vida. Algo permanente, imutável, quase eterno.
Mas a realidade tem seus próprios planos.
Poucos dias atrás, perdi meu pai.
Mesmo escrevendo estas palavras, ainda me parece difícil acreditar. A sensação de vazio é profunda. Saber que jamais voltarei a encontrá-lo — pelo menos nesta existência —, que não poderei mais ouvi-lo contar suas histórias, nem mesmo aquelas que ele repetia com certa frequência, é uma dor que desafia qualquer descrição.
Nada ameniza completamente essa ausência.
Nem o fato de ele estava caminhando para os 91 anos de idade.
Nem frases bem-intencionadas como “ele teve uma vida longa”, “agora, descansou”, “parou de sofrer” ou “foi para o céu”.
A saudade simplesmente existe.
E ela dói.
Durante as três semanas em que papai permaneceu internado — grande parte desse período em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e vários dias intubado — meus três irmãos e eu, além da minha mãe, dos netos e bisnetos dele e dos inúmeros amigos da família vivemos momentos de esperança, medo, angústia e reflexão.
Os médicos repetiam que ele era “extraordinariamente forte”.
Mais de uma vez ouvi que, se tivesse cuidado melhor da própria saúde, provavelmente chegaria sem dificuldade a ampliar a estatística de brasileiros centenários.
Foi impossível não recordar as inúmeras conversas que tivemos com ele ao longo dos últimos anos.
Conversas sobre consultas médicas.
Exames preventivos.
Medicamentos.
Alimentação.
Hábitos de vida.
Quase sempre sem sucesso.
Nem é preciso dizer qeu pai era um homem de convicções firmes.
Tinha personalidade forte.
E, como acontece com muitos idosos, resistia a recomendações que pareciam interferir em sua autonomia.
O curioso é que ele não era uma pessoa desinformada.
Muito pelo contrário.
Além de acompanhar notícias diariamente, havia trabalhado como enfermeiro durante parte da vida.
Conhecia os riscos.
Sabia da importância dos cuidados.
Mas, infelizmente, conhecimento nem sempre é suficiente para mudar comportamentos.
Hoje compreendo que essa resistência era, simplesmente, uma forma de preservar sua independência.
Sua identidade.
Sua maneira de estar no mundo.
A pergunta que surgiu na Missa de Sétimo Dia
Durante a Missa de Sétimo Dia, sentado ao lado de minha mãe — igualmente próxima dos 90 anos — uma pergunta não saiu da minha cabeça:
Como evitar que a história se repita?
Com ela.
Comigo.
Com qualquer pessoa que amo.
Afinal, eu próprio já me aproximo da casa dos setenta invernos.
Foi então que comecei a pesquisar o que médicos geriatras, psicólogos, especialistas em envelhecimento e cuidadores profissionais têm dito sobre essa fase da vida.
Descobri algo importante:
A maioria das famílias se prepara financeiramente para inúmeras situações.
Mas poucas se preparam emocionalmente, psicologicamente e praticamente para cuidar dos pais idosos.
E menos pessoas ainda se preparam para serem bons idosos.
O envelhecimento é uma realidade para todos
O Brasil envelhece rapidamente.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a população idosa cresce em ritmo acelerado e que o número de brasileiros com mais de 80 anos deverá aumentar significativamente nas próximas décadas.
Isso significa que milhões de famílias enfrentarão desafios semelhantes aos que eu e meus irmãos enfrentamos recentemente.
Filhos precisarão acompanhar consultas.
Administrar medicamentos.
Resolver questões burocráticas.
Adaptar residências.
Tomar decisões difíceis.
E, muitas vezes, lidar com a recusa dos próprios pais em aceitar ajuda.
Por isso, informação deixou de ser opcional.
Ela é uma necessidade.
Entendendo a famosa “teimosia”
Uma das maiores descobertas que fiz durante minhas leituras foi perceber que a chamada teimosia dos idosos nem sempre é simples resistência.
Especialistas explicam que ela pode surgir por diversos motivos:
- Desejo de preservar a autonomia;
- Medo de perder independência;
- Receio de se tornar um peso para a família;
- Alterações cognitivas;
- Depressão ou ansiedade;
- Problemas auditivos;
- Necessidade de atenção;
- Traços de personalidade desenvolvidos ao longo de toda uma vida.
Em muitos casos, o comportamento que os familiares interpretam como obstinação é, na verdade, uma tentativa de manter a própria dignidade.
Isso não significa que os filhos devam desistir de orientar.
Mas, talvez, precisem mudar a forma de fazê-lo.
Cuidar não é mandar
Uma das lições mais valiosas dos especialistas é que envelhecer não transforma ninguém em criança.
Pais continuam sendo adultos.
Continuam possuindo histórias, valores, opiniões e direito de escolha.
Mesmo quando precisam de ajuda.
O portal VivaBem, do UOL, publicou, no mês passado, uma reflexão importante sobre esse tema: o desafio é oferecer apoio sem infantilizar o idoso.
Muitos conflitos familiares surgem justamente quando os filhos passam a tratar os pais como incapazes.
A intenção costuma ser boa.
O resultado, nem sempre.
Proteção excessiva pode gerar revolta, tristeza e perda de autoestima.
O caminho mais equilibrado é construir decisões em conjunto.
Ouvir.
Negociar.
Explicar.
Respeitar.
E agir com firmeza apenas quando houver risco real à saúde ou à segurança.
O que os filhos precisam aprender
Nenhuma escola nos ensina a cuidar dos pais.
Mas algumas atitudes podem fazer enorme diferença:
1. Converse antes das emergências
Não espere uma internação.
Fale sobre:
- Saúde;
- Medicamentos;
- Documentos;
- Contas bancárias;
- Planos de saúde;
- Desejos para tratamentos futuros;
- Organização patrimonial.
Essas conversas evitam sofrimento adicional em momentos difíceis.
2. Acompanhe discretamente
Muitos idosos rejeitam vigilância.
Mas aceitam companhia.
Ofereça-se para acompanhar consultas.
Pergunte sobre exames.
Ajude a organizar receitas e medicamentos.
3. Observe mudanças
Pequenas alterações podem indicar problemas importantes:
- Esquecimentos frequentes;
- Quedas;
- Isolamento social;
- Mudanças de humor;
- Perda de peso;
- Dificuldade para administrar dinheiro.
Quanto mais cedo os sinais forem identificados, maiores as chances de intervenção eficaz.
4. Adapte a casa
Algumas medidas simples salvam vidas:
- Barras de apoio;
- Boa iluminação;
- Retirada de tapetes soltos;
- Pisos antiderrapantes;
- Corrimãos;
- Organização de fios e obstáculos.
Grande parte das internações de idosos está relacionada a quedas.
5. Preserve vínculos afetivos
Nenhum medicamento substitui afeto.
Visitas.
Conversas.
Passeios.
Fotografias antigas.
Momentos compartilhados.
Tudo isso ajuda a preservar a saúde emocional dos idosos.
O que os idosos precisam aprender
Talvez esta seja a parte mais difícil deste artigo.
Porque exige que olhemos para nós mesmos.
Ao pensar em meu pai, percebi algo que também me diz respeito.
Quem envelhece precisa aprender a aceitar ajuda.
Precisa compreender que autonomia não significa ignorar cuidados médicos.
Nem recusar orientações importantes.
Nem transformar a própria saúde em um campo de batalha familiar.
Ser um “bom velhinho” não significa perder personalidade.
Nem deixar de tomar decisões.
Significa colaborar com aqueles que desejam ajudar.
Significa fazer exames.
Tomar medicamentos corretamente.
Manter hábitos saudáveis.
Ouvir opiniões médicas.
E reconhecer que o amor dos filhos muitas vezes se manifesta justamente na insistência.
Afinal, ninguém insiste em quem não ama.
Um exercício de empatia para todas as gerações
Filhos precisam lembrar que os pais já enfrentaram inúmeras batalhas.
Pais precisam lembrar que seus filhos também carregam preocupações, responsabilidades e limitações.
Quando ambos conseguem enxergar o lado do outro, o cuidado se torna mais leve.
Mais humano.
Mais eficaz.
O envelhecimento não deveria ser encarado apenas como uma fase de perdas.
Ele também pode representar uma etapa de aproximação familiar, transmissão de experiências, fortalecimento de vínculos e construção de memórias.
Dicas práticas para famílias
Para os filhos
✅ Mantenha contato frequente.
✅ Incentive consultas preventivas.
✅ Respeite a autonomia sempre que possível.
✅ Evite discussões desnecessárias.
✅ Procure orientação profissional quando necessário.
✅ Demonstre afeto regularmente.
Para os idosos
✅ Faça exames periódicos.
✅ Siga orientações médicas.
✅ Mantenha-se fisicamente ativo.
✅ Preserve amizades e vida social.
✅ Aceite ajuda quando necessário.
✅ Converse sobre seus desejos e preocupações.
Onde buscar orientação
- Médico geriatra;
- Clínico geral;
- Psicólogos especializados em envelhecimento;
- Centros de Referência de Assistência Social (Cras);
- Centros de Convivência do Idoso;
- Secretarias Municipais de Saúde;
- Organizações de apoio a cuidadores familiares.
Uma última conversa que fica na memória
Ainda não consigo ouvir determinadas músicas sem lembrar de meu pai.
Ainda me pego esperando uma conversa que não virá.
Ainda procuro sua voz entre as lembranças.
Mas, entre a tristeza da despedida, ficou uma lição que talvez mereça ser compartilhada.
Todos nós passaremos por essa estrada.
Primeiro como filhos.
Depois, se a vida permitir, como idosos.
Por isso, talvez a melhor homenagem que possamos prestar aos nossos pais seja aprender desde já a cuidar deles com amor, respeito e conhecimento.
E, ao mesmo tempo, preparar-nos para envelhecer de forma que aqueles que nos amarem encontrem menos obstáculos e mais oportunidades de convivência.
Porque a velhice não é um problema a ser resolvido.
É uma etapa da vida a ser vivida com dignidade.
E, sempre que possível, compartilhada com carinho.

- Marinaldo Cruz Filho – Jornalista e editor de TodosPodem.org – Reflete sobre o comportamento humano, as mudanças sociais e o impacto das tecnologias na vida cotidiana
(As opiniões expressas nos artigos publicados no portal Todos Podem são de inteira responsabilidade
FOTES CONSULTADAS
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (dados demográficos e envelhecimento populacional).
- Portal VivaBem (UOL) – artigo “Como cuidar dos pais idosos sem tratá-los como crianças”.
- Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).
- Ministério da Saúde.
- Organização Mundial da Saúde (OMS) – Envelhecimento Saudável
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