(Ilustração em estilo cubista desenvolvida com o uso de ferramentas de Inteligência Artificial)
A avaliação não permite quaisquer impressionismos ou subjetividades, ao contrário, amarra firmemente todas as características técnicas e objetivas
- Paulo Martins
Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida
Temos o objetivo de avaliar, pelo novo modelo da prova de redação da Fuvest, um texto cujo(a) candidato(a) escreve de acordo com a norma padrão e atende ao que foi proposto (tema e modalidade textual).
A prova apresenta, na coletânea, cinco textos escritos e uma imagem. Neles há um escopo possível para a questão base da proposta: o perdão. Tem a coletânea o fulcro de despertar e encaminhar o vestibulando à frase temática “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado” (aplicada à dissertação), assim como servir de base à proposta da carta, com a seguinte instrução: “Redija uma carta a uma personagem hipotética que o(a) tenha acusado falsamente da prática de um ato moralmente reprovável, explicitando as razões pelas quais você lhe concede ou não o perdão”. A avaliação é randômica e aplica-se o método duplo-cego com um possível terceiro avaliador que garante o papel de árbitro entre posições diversas do primeiro e do segundo, garantindo isonomia e espantando o impressionismo e a subjetividade do processo.
Os critérios que norteiam o trabalho de avaliação estão divididos em cinco níveis de observação:
• Nota zero
• Tema (peso 3)
• Estrutura dissertativa (peso 2)
• Coesão, coerência e progressão argumentativa (peso 3)
• Correção gramatical, convenção da escrita e adequação vocabular (peso 2)
A nota zero ocorre quando o candidato não atende ao que foi proposto (tema e modalidade textual), quando faz cópia dos textos da coletânea, quando explicita o fato de não querer ser avaliado ou quando entrega a prova em branco. A prova com nota zero não passa pela avaliação nos quatro critérios seguintes, que, podemos dizer, são o pente fino da avaliação.
O primeiro critério tem peso 3 e diz respeito ao tema, com notas variando de um a quatro. O candidato recebe nota um quando apenas tangencia a frase temática, não apresenta indícios de autoria ou há indicação de plágio. O dois é aplicado quando há observação razoável do tema, paráfrase simples da coletânea e demonstração de alguma autoria. Recebe nota três quem faz abordagem adequada do tema e utilização produtiva da coletânea e há fortes indícios de autoria. A quatro quando o candidato faz abordagem aprimorada do tema com apropriação consistente da coletânea e mobilização de conhecimentos que demonstrem robustos indícios de autoria.
Tomemos um exemplo da redação elaborada por um candidato(a) do vestibular Fuvest 2026. Vejamos como ele abre seu texto:
“Comecemos pelo Fado tropical, de Chico Buarque. A canção, que integra o texto da peça Calabar, põe na boca de um carrasco o seguinte terceto: ‘E se a sentença se anuncia bruta/ mais que depressa a mão cega executa/ pois que se não o coração perdoa’. Mais que sugerir, provocativamente, que até os carrascos têm sentimento, os versos suscitam o questionamento a respeito da capacidade humana de perdoar – a si mesmo e aos outros.”
Essa abertura já demonstra a capacidade do(a) candidato(a) de não só tocar na questão tema como também dialoga com textos da coletânea que, invariavelmente, colocam em jogo a questão do perdoar e não perdoar, valendo-se de uma destreza de repertório incomum, que denota forte traço de autoria, mobilizada pela leitura atenta da coletânea.
Logicamente, a nota máxima ainda deverá ser garantida por outros elementos argumentativos e por sua destreza na habilidade com a modalidade textual escolhida (a dissertação), com sua competência tanto na coesão e na coerência como no uso adequado da língua padrão.
O segundo critério, com peso 2, traz à tona algo relativamente mais simples que diz respeito à estrutura dissertativa. Observa-se se a resposta é “sim” para estas perguntas: é uma dissertação? Possui introdução com uma tese? O desenvolvimento garante essa tese? Tem um fechamento? Aqui novamente temos quatro notas: atribui-se um ao candidato que atende parcialmente a estrutura do gênero, ainda que com traços conflitantes de outros gêneros; nota dois se o vestibulando mostra uma estrutura satisfatória, ainda que com traços de outras modalidades; o três é obtido se o texto é adequado à modalidade dissertativa, ainda que lhe falte algum traço formal necessário; quatro é chancelado se o texto apresenta na totalidade a estrutura textual desejada.
O terceiro critério tem peso 3 e verifica o atendimento a três questões fundamentais para um texto. Os recursos linguísticos da coesão e da coerência e o que decorre como bom uso desses elementos, a progressão argumentativa. Nota um é aplicada se há razoável articulação e muitas falhas na composição textual. A dois, se a articulação for satisfatória, com o uso de poucos recursos de coesão e coerência. A nota três é atribuída ao texto que tem boa articulação de sentido com aprimoração de sua coerência. Na quatro, observa-se que o candidato operou uma ótima articulação formal e de sentido com emprego dos recursos linguísticos adequados e composição textual condizente com a progressão argumentativa.
Tomemos, novamente, a redação feita pelo(a) candidato(a) usado como exemplo. Note sua tese na introdução:
“O fato é que, neste mundo em que as redes sociais são, cada vez mais, a própria vida, o perdão se torna uma categoria perigosamente maleável: ao indivíduo que comete um deslize, parece não restar saída outra que não a execração pública; enquanto isso, multidões fecham os olhos, cheios de perdão, para atrocidades que jamais deveriam ser perdoadas.”
A construção da tese aponta para uma urdidura argumentativa progressiva que, no segundo parágrafo, aponta para “o inferno são os outros”, de Sartre. Nela, diz o(a) candidato(a): “Quem navega por essa e por outras redes [um anafórico para o Twitter –observação nossa] sabe que tem sempre alguém à espreita para apontar um dedo acusador ao outro.”
E continua: “para que a condenação venha imediata, sem possibilidade de perdão. E tome pedra na Geni…”
Em mais uma citação de Chico com um traço autoral, deveria ser “pedra e bosta?” (bosta tem um peso moral mais grave), bem colocada em contexto diverso, mas em absoluta conexão com o tema. Afinal, Geni iria “redimir” os outros (“você vai nos redimir” é importante para a malha textual), cedendo à sanha sexual do comandante do zepelim alemão.
Em seguida, o(a) candidato(a) invoca Fernando Pessoa na voz de Álvaro de Campos para citar em sua redação: “príncipes da vida” no poema “Vida em linha reta”, afinal são aqueles que nunca falham ou erram.
Na progressão argumentativa, o(a) candidato(a) não recua, vai adiante, encaminhando para o desfecho.
“O problema é que, aí, se perde por completo aquilo que a escolha humana de perdoar tem de mais nobre: de um lado, a grandeza de se reconhecer também falível e, com humildade, debater, ouvir, ensinar; do outro, a possibilidade de examinar a própria consciência a fim de se aprimorar enquanto pessoa. Mas não: o perdão, que deveria ser pensado caso a caso, condicionado às circunstâncias específicas em que o erro foi cometido, fica interditado, sem apelação. ‘Cortem-lhe a cabeça!’ [Lewis Caroll em ‘Alice no país das Maravilhas’ o que nos assusta –‘Off with her/their head!’, diz a Rainha de Copas–, em observação nossa], é tudo que parecem exigir.”
Ainda na progressão argumentativa, o(a) candidato(a) traz aquilo que já fora argumentado para o mundo concreto, fora da ficção, que, afinal, sempre imita a vida. Comenta estas últimas palavras da Rainha de Copas. Traduz a metáfora sob perspectiva pessoal e diz: “Senão cortadas, ao menos responsabilizadas, essas… essas não raro seguem intactas, imunes a qualquer julgamento”.
Donde advêm do mundo contemporâneo exempla (exemplos, paradigmas): Benjamin Netanyahu e o genocídio em Gaza; e continua “no Brasil, a escória do Congresso pede anistia (em nome da ‘pacificação’) para quem a vida inteira pregou a morte e agora sofre, que pecado, com soluços. (…) e perdoariam Hitler por seus sem ‘excessos’”.
Diz o(a) candidato(a), sintetizando e finalizando, apresentando o seguinte fecho:
“Neste império de insensibilidade em que se converteu o mundo, em que se converteram as redes, como, afinal, perdoar? Em que circunstâncias? Até que ponto? Sob que condições? É difícil calibrar essa régua, por mais que reconheçamos claramente descalibrada. Há, por certo, quem mereça a possibilidade de aprender com erros. Mas, cá entre nós, há carrascos tão canastrões, mas tão canastrões, que não deveríamos jamais deixar que nos comovessem.”
Por fim, temos o quarto critério (peso 2), fundado na correção gramatical, convenção da escrita e adequação vocabular. A nota um é proposta para quem rompe frequentemente as convenções da escrita e possui domínio elementar da norma padrão e do vocabulário; a dois é aplicado para aquele que rompe algumas vezes e tem domínio satisfatório; a nota três é concedida para o candidato que as rompe raramente e apresenta um bom domínio da norma padrão e do vocabulário; a quatro é proposta para aquele que rompe mínima e pontualmente convenções da escrita e apresenta ótimo domínio da norma padrão gramatical e do vocabulário.
Pelo que os excertos apresentados e pelo texto como um todo, o(a) candidato(a) irrefutavelmente tem nota máxima. Logo, pelo que expusemos, a grade não permite quaisquer impressionismos ou subjetividades, ao contrário, amarra firmemente todas as características técnicas e objetivas para se avaliar um texto desse nível.

- Paulo Martins e Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida, professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP






















