Memória Nostálgica ao Estilo Van Gogh (Ilustração criada com o uso de IA)
Uma agradável surpresa: uma caixa repleta de livros, inclusive com a coleção do “Sítio do Pica-pau Amarelo”, de Monteiro Lobato
- João Alvarenga
Enfim, mais um Natal chegou! Porém, esse momento sempre me traz inúmeras lembranças, que envolvem essa data de saudosismo. Afinal, já vivi muitos natais, sendo os da minha infância os mais marcantes, ainda que tivesse crescido num lar em que os recursos fossem parcos. Sobre os festejos natalinos, quem tem 60+ (que é o meu caso) percebe que, ao longo do tempo, houve muitas mudanças nessa celebração religiosa. Pois, a cada ano, o apelo comercial fala mais alto em detrimento à finalidade maior da festa: celebrar o nascimento do menino Jesus. Por isso, quero compartilhar, aqui, algumas das minhas reminiscências natalinas.
Um momento da minha infância que ficou na minha memória foi a primeira vez que vi, frente a frente, a figura emblemática do tal de Papai Noel. Pois, segundo os adultos, na noite de Natal, essa figura mitológica levava brinquedos para as crianças de todo o mundo. Para ser mais exato, era dezembro de 1968. Eu estava com sete anos de idade, e já começava a entender a importância que as primeiras letras teriam em minha vida adulta.
Por ser o caçula da família, fui pré-alfabetizado por minha irmã, Maria Helena, bem antes de chegar ao antigo “Jardim da Infância”, o que corresponderia hoje ao Fund1. Afinal, ela tinha recém-concluído o Magistério, que era o antigo curso de formação de professores para o ensino básico. Desse modo, aproveitou para praticar o que aprendeu, ensinando-me as primeiras letras do alfabeto. Como já sabia ler e escrever, razoavelmente, no ato da matrícula, matriculam-me no primeiro ano primário, pulando o tal do prézinho.
Mas, retornando às minhas memórias, lembro-me que, aproveitando o clima festivo daquele ano, nossa falecida mãe queria nos mostrar uma novidade: a decoração natalina da Rua Campos Sales, principal centro comercial de Itapetininga. Então, à noite, fomos olhar as vitrinas das lojas todas enfeitadas com motivos natalinos. Aos meus olhos, todos pareciam felizes, fazendo suas compras. A descontração tomava conta do ambiente, pois o comércio, a exemplo do ocorre hoje, também funcionava até às 22h.
Quero observar que, naquela época, ainda não havia, nas cidades do interior, os famosos Shoppings Centers. Aliás, esse modismo, importado dos Estados Unidos, só se tornaria comum, por aqui, a partir do final dos anos 90. Apesar disso, as ruas destinadas ao comércio também contavam com vários atrativos, como lanchonetes, sorveterias e cinemas, além de uma bela praça, onde os namorados se encontravam.
Como as lojas do antigo centro comercial eram a única opção de compra para os consumidores, os comerciantes faziam de tudo para atrair os clientes. Dentre elas, destacava-se, lá em Itapê, a saudosa “Casa Armênia”, da família Bazarian. A imponente loja, que vendia de utensílios domésticos a brinquedos, ficava num belo casarão em estilo neoclássico, bem na esquina da Campos Sales com a Avenida Peixoto Gomide.
Era, exatamente ali, na calçada dessa loja, durante o período natalino, que ficava um cara rechonchudo de barbas grisalhas, vestido de vermelho e botas pretas. Sua função: atrair a atenção dos consumidores, dar tchauzinho a quem passasse e, o mais importante, distribuir guloseimas às crianças que ficavam loucas com a variedade de brinquedos da loja.
Lembro-me como se fosse hoje que, ao passar pelo famoso local, minha querida mãe me incentivou: “vá dar um abraço no bom velhinho”. Claro que essa estratégia tinha um objetivo: ganhar um punhado de balas. Na hora em que o referido personagem se abaixou para ouvir os pedidos dos pequenos, corri em sua direção e dei-lhe um forte abraço. Ao ser surpreendido, ele sorriu para mim. Depois de também me dar um abraço, entregou-me algumas guloseimas, disparando seu bordão: “Feliz Natal, menino, OH, OH, OH!!!”
No dia seguinte, depois daquele instante encantador, eu e meus irmãos fomos surpreendidos por uma triste notícia: nosso pai avisou que, infelizmente, o Papai Noel estava com tantos pedidos para atender, que não teria tempo de passar em nossa casa. Mas, meu irmão mais velho foi mais pragmático: “Nosso pai não tem dinheiro para comprar brinquedos”. Fiquei triste, mas me conformei com a situação, ao ouvir minha mãe: “O mais importante é que não falte comida”.
Porém, uma coisa mágica aconteceu logo em seguida! Na véspera da noite de Natal, chovia muito. Eu estava em meu quarto, olhando os gibis e revistas de HQ, quando, de repente, alguém bateu na porta da frente. Era meu padrinho de batismo, o senhor Raimundo Françani. Ele chegou com uma agradável surpresa: uma caixa repleta de livros, inclusive com a coleção do “Sítio do Pica-pau Amarelo”, de Monteiro Lobato. As histórias da turma do Sítio faziam muito sucesso entre os brasileirinhos, porque o bruxinho Harry Potter, ainda não ameaçava o império da boneca Emília.
Entre os livros que estavam nessa caixa, um, em especial, despertou, logo de cara, a minha atenção. Na verdade, era uma edição especialíssima, em papel de primeira, sobre a vida e a obra do pintor expressionista holandês Vincent van Gogh. Além de contar um pouco da trajetória desse brilhante artista, que passou por muitos perrengues nesta vida, o volume era todo ilustrado com réplicas de suas principais pinturas.
Confesso que essas telas vívidas de cores intensas encheram meus olhos de felicidade. Tanto que, por muito tempo, esse foi meu livro favorito. Olhei as telas por diversas vezes. Um detalhe, naquele momento, esqueci-me, completamente, de que não teríamos brinquedos naquele ano. Na verdade, essa surpresa do meu padrinho bastou para alegrar o meu Natal. No fundo, começava, ali, minha paixão pelos livros.
Claro que existiram muitos outros natais; mas este, em especial, ficou na minha lembrança de menino. Afinal, muito cedo, descobri que “a realidade é um carrinho de brinquedo sem rodas”. Porém, acredito que esse gesto bondoso do meu padrinho, sem que ele pudesse antever, foi determinante na minha jornada profissional. Pois, graças ao gosto pela leitura, tornei-me professor e jornalista. Também me aventurei como poeta, chegando a publicar alguns pequenos livros de poesia.
Finalizando esta crônica, registro, ainda, que no Natal de 1975, houve uma grande mudança na minha vida. Exatamente, naquele ano, o menino deu lugar ao pré-adolescente. Assim, como muitos da minha geração, passei a estudar e trabalhar ao mesmo tempo, para ajudar em casa. Por isso, a figura do Papai Noel já tinha perdido (um pouco) o encanto, já que o mundo do trabalho me encheu de responsabilidades. Mas, isso é tema para outra crônica.
Bom Natal a todos!

- João Alvarenga é consultor do idioma






















