
Com mais de 1 milhão de participantes, Prova Nacional Docente revela histórias inspiradoras para quem pretende aderir ou evoluir na profissão
Mais do que uma avaliação nacional, a Prova Nacional Docente (PND), aplicada em todo o país neste domingo (26 de outubro), se tornou um símbolo de esperança e reconhecimento para quem escolheu o caminho da educação. Entre os mais de um milhão de participantes, histórias de superação, vocação e compromisso com o ensino reforçam que ser professor é muito mais do que exercer uma profissão — é abraçar uma missão que transforma vidas.

Francisco Gilvar, filho de analfabetos, não se abateu pelas dificuldades (FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Francisco Gilvar: das margens do rio Parnaíba à sala de aula
No Distrito Federal, um dos candidatos da PND é Francisco Gilvar Pereira da Silva, filho de um casal de analfabetos do Piauí. Aos 56 anos, ele concluirá o curso de letras – português em dezembro, sua segunda graduação. A vida nunca foi fácil para Francisco, que começou a trabalhar aos 7 anos como auxiliar no carregamento de areia e madeira de caminhões em Amarante (PI). A vinda para Brasília foi motivada pelo serviço militar. Mas, foi como auxiliar de limpeza, em uma escola privada de Brasília, e a proximidade com o meio acadêmico que a vontade de ser professor foi despertada em Francisco.
Dentro da instituição de ensino, ele galgou posições até o cargo de auxiliar administrativo, o que o influenciou na escolha do primeiro curso, o de administração. Ele foi o primeiro integrante da família a ter um curso superior, mas faltava algo para realizar o sonho. Então, conquistou uma bolsa de estudos e correu atrás do sonho de cursar a licenciatura que mais tem familiaridade com as letras, aquelas que seus parentes não conheciam. Os pais falecidos não terão a oportunidade de ver o filho com diploma na mão. Mas é para a terra natal que ele quer voltar para fazer a diferença na educação de outros “Franciscos e Franciscas”, como foi um dia em Amarante.
“Sinto uma emoção grande porque tenho vontade de retornar para o meu estado para dar oportunidade àqueles que não têm condições [de estudar], como eu não tive. E para ensinar, passar o meu conhecimento e um pouco da minha experiência para a frente. Será gratificante.”
Edinácio Vargas: o sonho de um professor indígena
Outro candidato no Distrito Federal, o indígena Edinácio Silva Vargas, de 32 anos, da etnia Marubo, aguardava o momento de cruzar o portão do Centro de Ensino Médio Paulo Freire, na Asa Norte, centro da capital federal, para fazer a Prova Nacional Docente. Ele contou à reportagem da Agência Brasil que desde que saiu da Terra Indígena (TI) Vale do Javari, em Cruzeiro do Sul (AC), tinha o sonho de ser professor de língua inglesa.
“Era um sonho antigo de querer falar outra língua. Ainda não estou fluente, mas falta pouco. Também penso nas perspectivas profissionais que o inglês pode proporcionar.”
Em sua trajetória de estudante, Edinácio se formou em gestão pública pela Universidade Estadual do Amazonas. Hoje, ele quer unir as duas formações superiores em benefício de seus futuros alunos.
“Com base nos últimos estágios obrigatórios que eu fiz, na licenciatura, eu quero dar apoio, mediar o conhecimento. Quero, com a minha profissão, ensinar, ajudar as pessoas, o que contribui na formação para a vida dos alunos. Eu gostei mesmo dessa ‘coisa’ de ajudar”, admite.

Diego Lima aguarda para fazer a Prova Nacional Docente em Brasília (FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Diego Lima: o atleta que virou inspiração em sala de aula
Atleta paralímpico e estudante de Educação Física, Diego Lima carrega uma história que combina esporte, superação e amor pelo ensino. Nascido com paralisia cerebral, já praticou atletismo, tênis e basquete em cadeira de rodas. Quando quase desistiu da faculdade por falta de recursos, encontrou no Programa Atleta Cidadão, do Comitê Paralímpico Brasileiro, o incentivo necessário para seguir adiante.
“Quero fazer a diferença na vida de outros atletas. Ser professor é continuar essa corrente de aprendizado e motivação”, explica Diego, que se inspira nos mestres que o incentivaram nas quadras.
Diego Lima nasceu com paralisia cerebral. Atualmente, além de estudante do último ano da graduação, ele é velocista cadeirante, depois de ter praticado atletismo, tênis e basquete de cadeira de rodas. A virada de chave na cabeça e no coração, que o fez escolher a docência, foi há dez anos.
Porém, a falta de recursos financeiros quase o fez abandonar a faculdade no meio do curso. Pelo Programa Atleta Cidadão, do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), que tem o objetivo de estimular o desenvolvimento pessoal e profissional, Diego Lima voltou a estudar e quer alçar novos voos após se formar.
- “Agora, estou na fase de querer fazer a diferença na vida de outros atletas. Quando estiver na carreira de professor, quero dar sequência, passar o que aprendi para os futuros alunos e dar o conhecimento que eles precisam.”

Maíra Santos conta que o comportamento de uma professora de química, no ensino médio, a influenciou para fazer o curso (FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Maíra e o encanto da química
Para Maíra Araújo dos Santos, de 23 anos, moradora da cidade de Itapoã, no Distrito Federal, os comportamentos de uma professora de química chamada Marina, no ensino médio, a influenciaram a decidir pelo curso.
“Se a gente parar para pensar, tudo ao nosso redor é química. Eu quero mostrar para os estudantes que essa área é muito mais do que uma matéria que vai dar medo, como a professora Marina me ensinou.”
Munida de caneta preta para fazer a prova, Maíra confessa que antes mesmo de pensar em ser professora, ela faz a prova neste domingo porque precisa comprovar a presença para, enfim, ter o aguardado diploma. “Essa prova é do Enade das Licenciaturas. Então, para a faculdade liberar meu diploma, preciso fazer a PND.”
Solange Braga: o cuidado que ensina
Se Maíra quer, com urgência, concluir o curso de química, o objetivo de Solange Oliveira Braga, formada em pedagogia, é ser aprovada no concurso da Secretaria de Educação do Distrito Federal, autorizado neste mês e que vai ser realizado em 2026.
- “Já estou estudando, porque no ano que vem já vai ter concurso da Secretaria de Educação do DF. Estou nesse propósito. Pretendo dar aulas a crianças menores 5 anos.”
A vocação para a educação infantil ela diz ter percebido ao cuidar dos irmãos pequenos, na cidade mineira de São Francisco. “Você lembra da sua infância, do cuidado com os irmãos e de como é bom aquele contato com crianças. É o amor verdadeiro.”
O pontapé que faltava para lecionar veio da própria família. “Tenho parentes que atuam nessa área. Então, fui me espelhando neles. Por isso, a vida toda eu sempre falei: quando eu estudar, quero ser professora”.

Marcela Silva Vaz quer trabalhar com crianças, no ensino fundamental (FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Marcela Vaz: ensinar é formar todas as profissões
A estudante Marcela Silva Vaz, de 31 anos, também concluirá o curso de licenciatura em 2025. Ao mirar na estabilidade do serviço público e no salário certo todo início de mês, Marcela pensa ainda nas crianças em situação de vulnerabilidade econômica e social.
- “Há muitas crianças carentes e algumas escolas deixam muito a desejar. Quero ser um diferencial nisso tudo, trabalhando no primeiro ano do ensino fundamental, onde o saber começa com o ensino para ler e escrever.”
Marcela explica que o professor da educação básica é o profissional que forma todos os outros.
Sobre a realidade dentro de sala de aula, ela defende que as redes de ensino devem se adaptar melhor para o atendimento de estudantes neurodivergentes e com outras necessidades especiais. “Hoje em dia, há um número maior de crianças especiais nas escolas. Entendo que professores têm dificuldades e muitos não conseguem atingir bem o objetivo de ensinar, por diversos fatores. Mas aprendi a dar o meu máximo. Na escola, quero ser uma professora que dá a direção, em conjunto com a família. O professor tem que ter essa dedicação”.
Um país que aprende com seus professores
As histórias de Francisco, Edinácio, Diego, Maíra, Solange e Marcela revelam que o futuro da educação brasileira está sendo construído por pessoas que acreditam na força do ensino como transformação social.
Mais do que resultados de uma prova, elas representam o espírito da Prova Nacional Docente: reconhecer, valorizar e inspirar aqueles que fazem da sala de aula o espaço onde nascem os sonhos — e onde o Brasil aprende a crescer.Dicas para quem quer ser professor
- Invista em cursos de atualização e metodologias ativas de ensino.
- Mantenha-se informado sobre os programas de incentivo à docência, como o Mais Professores para o Brasil e o Programa de Residência Pedagógica.
- Acompanhe editais e concursos estaduais e municipais com vagas para professores licenciados.
- Cultive o hábito de estudar continuamente — o maior diferencial do educador é o exemplo.






















