
Atitude faz parte da cidadania. Assim como buscamos emprego, formação e oportunidades, precisamos também proteger os recursos que sustentam a vida
- Marinaldo Cruz Filho
Em julho de 1969, eu, um menino de pouco mais de dez anos assisti, ao lado da família e vizinhos, a um dos momentos mais marcantes da história humana: o pouso da Apolo 11 na Lua. A sala estava lotada, a televisão Telefunken de 24 polegadas — recém-comprada a prestações — irradiava imagens cinzentas e trêmulas, e o calor, somado à emoção, fazia todos suarem. O suco de umbu acabou cedo, o caldo de cana também. Restava a velha e subestimada água.
Mas o pote de barro, único reservatório da casa, rachou-se no auge da transmissão. A busca por um aguadeiro — o Cururu, ou quem quer que passasse com suas latas penduradas no lombo do jumento — virou questão de sobrevivência. Enquanto Armstrong dava seus pulos na poeira lunar, em Garanhuns — no coração do Agreste Pernambucano —, o problema era muito mais terreno: conseguir um copo de água fresca. Vale destacar que a residência possuía um torneira abastecida pela rede pública. Porém, como acontecia na maior parte do tempo, não havia uma gota do “precioso líquido” no encanamento.
A história, real e ainda viva na minha memória, é um símbolo da contradição que atravessa gerações. De um lado, a humanidade alcança as estrelas, transforma a comunicação, a medicina e a inteligência artificial. De outro, continua prisioneira de necessidades básicas que deveriam estar resolvidas há séculos — e a água, essencial à vida, é talvez o exemplo mais gritante dessa dependência negligenciada.

Comércio ambulante de água ainda é alternativa para o abastecimento em alguns lugares do Brasil (FOTO: Reprodução / Internet)
O avanço tecnológico e a sede que persiste
Mais de meio século depois daquele “pequeno passo” de Armstrong, a Terra inteira continua tropeçando em seu próprio atraso civilizatório. A escassez de água potável — e o desperdício — formam um binômio que ameaça a sobrevivência de bilhões de pessoas.
Relatórios recentes da ONU e da FAO mostram que mais de 2 bilhões de seres humanos ainda vivem sem acesso a água potável segura. Em países africanos e do Oriente Médio, como Iêmen e Jordânia, o consumo diário por pessoa é inferior a 20 litros, volume insuficiente até para as necessidades básicas. Em contraste, nos Estados Unidos, a média ultrapassa 570 litros por dia — quase 30 vezes mais do que o mínimo recomendado pela ONU.
O Brasil, dono de cerca de 12% da água doce superficial do planeta, vive o paradoxo da abundância desigual. Há regiões inteiras que sofrem com racionamentos constantes, como Sorocaba e municípios vizinhos, enquanto metrópoles desperdiçam bilhões de litros em vazamentos e usos supérfluos. Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), quase 38% da água tratada no país é perdida antes de chegar às torneiras.
A herança das cacimbas e o presente das cisternas
Nas regiões rurais do Nordeste, práticas ancestrais ainda resistem. As cacimbas, cavadas à mão e abertas ao tempo, foram durante décadas a única fonte de água em muitas comunidades. A água da chuva, turva e muitas vezes contaminada, servia para tudo: lavar, cozinhar, matar a sede dos bichos — e, quando não havia alternativa, a dos humanos também.
Hoje, programas como o Programa Cisternas, criado em parceria entre o governo federal e a ASA (Articulação do Semiárido), mudaram parte dessa realidade. Milhões de famílias já receberam cisternas de placas que captam a água das chuvas de forma mais higiênica. Ainda assim, centenas de milhares de domicílios no Ceará, Bahia e Piauí continuam dependendo de cacimbas ou caminhões-pipa, num ciclo de vulnerabilidade que se repete a cada estiagem.
O comércio informal de água — outrora feito por aguadeiros com jegues e latas de óleo — hoje sobrevive na forma dos caminhões-pipa e revendedores informais. É a mesma precariedade, com outro disfarce.
O desperdício como doença crônica
A comparação é inevitável: o desperdício de água tornou-se uma espécie de “doença crônica global”. Todos conhecem o problema, como se conhece o ciclo de reprodução do mosquito da dengue, mas o comportamento coletivo segue inalterado.
No Brasil, o consumo médio doméstico varia de 117 a 154 litros por pessoa por dia — um número aparentemente razoável, mas que esconde um uso descontrolado em áreas urbanas e uma escassez dramática nas periferias. E enquanto isso, a agropecuária consome 73% de toda a água doce utilizada no país, frequentemente com métodos de irrigação ultrapassados.
No cenário mundial, países como o Turcomenistão, EUA e Austrália lideram o ranking de consumo total per capita, com retiradas anuais que superam 3 mil litros por pessoa por dia, impulsionadas pela agricultura e pela indústria. Já em nações como Somália, Sudão e Iêmen, o volume disponível mal cobre a sobrevivência.
A desigualdade hídrica é tão brutal quanto a desigualdade de renda. E ambas nascem da mesma raiz: a falta de planejamento, o egoísmo coletivo e a crença de que os recursos naturais são infinitos.
As previsões de escassez e o alerta para 2026
Os sinais de alerta não são projeções distantes — são fatos do presente. A Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA) já prevê racionamentos pontuais e crises hídricas localizadas ainda neste ano, especialmente nas regiões Sudeste e Nordeste. A estiagem prolongada e o aumento das temperaturas devem reduzir o nível dos reservatórios que abastecem milhões de pessoas.
Em São Paulo, o governo anunciou medidas emergenciais de preservação dos mananciais e campanhas de conscientização. Mas nenhuma política pública, por mais eficiente que seja, é capaz de vencer a falta de bom senso da população.
O papel de cada um: pequenas ações, grandes resultados
O consumo consciente é o antídoto mais simples e eficaz contra a escassez. Basta lembrar que um banho de 15 minutos pode gastar 150 litros de água, e reduzir o tempo para cinco minutos pode economizar até 9 mil litros por mês em uma única família.
Outras medidas básicas fazem diferença imediata:
- Verificar vazamentos e evitar descargas desnecessárias;
- Fechar a torneira enquanto ensaboa a louça ou escova os dentes;
- Reutilizar água da máquina de lavar para limpeza;
- Captar água da chuva para regar plantas e lavar áreas externas;
- Reportar vazamentos públicos e evitar desperdícios comunitários.
Parece pouco, mas somado, é muito. O problema da água não é técnico — é comportamental.

Sem água, não há futuro — nem para a tecnologia, nem para a humanidade (FOTO: Reprodução / Internet)
Reflexão final: entre o poço e as estrelas
Quando aquele menino de Garanhuns assistiu Armstrong pisar na Lua, talvez não imaginasse que, mais de meio século depois, o maior desafio da humanidade não seria conquistar Marte, mas garantir água limpa na Terra.
Enquanto a ciência avança rumo ao infinito, a civilização parece andar em círculos em torno de uma torneira que insiste em pingar. É hora de percebermos que cada gota importa — não apenas como recurso, mas como símbolo daquilo que nos mantém vivos.
Porque sem água, não há futuro — nem para a tecnologia, nem para a humanidade.
Dicas para cidadãos conscientes
O consumo consciente é parte da cidadania. Assim como buscamos emprego, formação e oportunidades, precisamos também proteger os recursos que sustentam a vida. Em casa, na escola, no trabalho ou no campo, cada ação conta. Seja exemplo — e inspire outros a fazerem o mesmo.

- Marinaldo Cruz Filho – Jornalista e editor de TodosPodem.org – Reflete sobre o comportamento humano, as mudanças sociais e o impacto das tecnologias na vida cotidiana






















