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A universidade pública entre o ideal iluminista e as contradições da realidade

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A universidade pública entre o ideal iluminista e as contradições da realidade

O que é, de fato, a universidade pública hoje, e para quem ela realmente se destina?

* Beatriz Ferreira, Fabiana Sacomani, Maria Eduarda, Luiza Pereira Rateiro e Luana Leme

A universidade pública, em seu cerne, carrega a promessa iluminista de ser um farol do conhecimento, uma grande niveladora social e um motor para o progresso, convertendo sonhos individuais em realidades palpáveis. Contudo, ao adentrarmos seus corredores e perscrutarmos suas dinâmicas no século 21, deparamo-nos com um espaço complexo, um campo de disputas e contradições que ecoam as reflexões de pensadores e romancistas, como José Saramago fez sobre as cegueiras e lucidezes da nossa sociedade. A pergunta que emerge, e que reverbera nos debates acadêmicos e nas vivências estudantis, é: o que é, de fato, a universidade pública hoje, e para quem ela realmente se destina?

A visão saramaguiana de uma sociedade que, mesmo enxergando, pode optar por uma “cegueira” conveniente, ressoa profundamente quando analisamos as estruturas de privilégio que ainda permeiam o ambiente universitário. Como apontado por Djamila Ribeiro, inúmeros dos que ocupam esses espaços historicamente restritos são herdeiros de privilégios de berço – e, como tais, são muitas vezes inconscientes dessa vantagem inicial. Essa “cegueira” ao próprio privilégio dificulta a percepção das barreiras que tantos outros enfrentam. Mais sutil e dolorosa ainda é a opressão internalizada, onde o oprimido, em sua luta por sobrevivência ou ascensão, pode acabar por replicar mecanismos opressores – uma dinâmica que Saramago explora com maestria ao mostrar como a ausência de visão coletiva pode levar a distorções individuais e sociais.

Essa percepção se alinha com a lembrança de que a universidade é, e sempre foi, um espaço de constante luta. Conceição Evaristo, em obras como Becos da Memória, e pensadoras como Angela Davis, em Mulheres, Raça e Classe, nos recordam das batalhas árduas travadas por mulheres, pessoas negras e outros grupos historicamente marginalizados para adentrar e permanecer nessas incubadoras do saber. A universidade, portanto, não é uma entidade isolada, mas um reflexo da sociedade, onde as lutas por reconhecimento, reparação histórica e justiça social se manifestam intensamente. Na perspectiva brasileira, pode-se citar a implementação de políticas de cotas raciais e sociais, a partir dos anos 2000, que representou uma mudança significativa, um início de ruptura com o elitismo secular, provocando transformações curriculares e na própria produção científica.

No entanto, o ideal de uma “universidade para todos” ainda enfrenta obstáculos consideráveis. A imagem medieval da universidade como um espaço de segregação, embora atenuada por avanços importantes, ainda lança sua sombra. O conhecimento, ao mesmo tempo que carrega um imenso poder de democratização, pode ser instrumentalizado para a manutenção de elites. Essa tensão se agrava com o sistemático sucateamento e precarização do financiamento público. Cortes em infraestrutura, no corpo docente e, crucialmente, nas políticas de permanência estudantil, questionam a própria viabilidade do sonho universitário para aqueles que, mesmo superando as barreiras do mérito, lutam para se manter. A pergunta que surge é: de que adianta abrir as portas se não se garante as condições para que o estudante pobre, negro, indígena, possa trilhar sua jornada acadêmica com dignidade?

A falta de tangibilização das descobertas científicas e avanços acadêmicos na sociedade também é um ponto crítico. A pesquisa, vital para o progresso, precisa encontrar caminhos mais efetivos para dialogar e transformar a realidade para além dos muros universitários. Caso contrário, corre-se o risco de uma alienação, de uma produção de conhecimento que, embora valiosa, não se conecta com a “vida viva” da população que a financia.

Nesse contexto, a interrogação “universidade para quem?” torna-se um chamado à reflexão crítica – podemos chamar a universidade de “pública” se ela não acolhe a diversidade em sua plenitude, se não garante o pertencimento de todos os seus membros? As políticas de pertencimento, essenciais para criar um ambiente inclusivo, são frequentemente tratadas com desconfiança por aqueles que, confortáveis em seus privilégios, temem perder uma posição historicamente favorecida. É o medo de alteração do status quo que, como Djamila Ribeiro questiona em Quem Tem Medo do Feminismo Negro?, busca silenciar vozes e perpetuar exclusões, uma forma de violência simbólica que impede a transformação real.

A universidade, portanto, é um campo de disputa, onde “a força do coletivo se mostra fundamental para romper barreiras que o individualismo jamais alcançaria”. Tornar a universidade mais plural não é apenas uma questão de justiça, mas uma condição essencial para garantir que todas as pessoas, independentemente de suas interseccionalidades, tenham oportunidades semelhantes de acesso a um ensino gratuito e de qualidade. A transformação só acontece quando estamos dispostos a escutar, compartilhar e construir juntos.

Em suma, a universidade hoje é um paradoxo: uma das maiores conquistas da sociedade em termos de democratização do conhecimento e ascensão social, mas ainda marcada por segregação, elitismo e desafios estruturais, dos quais diversos grupos de interesse que a ela pertencem têm convicções para manter. Não é perfeita, mas é essencial. É um espaço de esperança, de luta contínua, onde a busca por uma lucidez coletiva, que reconheça as omissões e trabalhe ativamente para superá-las, pode verdadeiramente transformar vidas e construir um futuro mais justo. Portanto, a universidade pública, para cumprir sua promessa, deve ser incansavelmente reinventada para que seja, de fato, um espaço de todos e para todos, e onde o conhecimento floresça como ferramenta de libertação e transformação social.

A universidade pública entre o ideal iluminista e as contradições da realidade

* Beatriz Ferreira, Fabiana Sacomani, Maria Eduarda, Luiza Pereira Rateiro e Luana Leme, alunos de graduação da Escola de Educação Física e Esporte da USP

Texto publicado originalmente no Jornal USP e elaborado a partir das reflexões levantadas pela disciplina Dimensões Filosóficas da Educação Física e do Esporte, ministrada pela professora Yara M. Carvalho

(As opiniões expressas nos artigos publicados no portal Todos Podem são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições do site).
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