(Parte 2)
Ganhar na loteria é sorte ou coincidência? (Ilustração criada com ferramentas de IA)
Entre lembranças familiares e reflexões sobre apostas, este relato mostra como a sorte pode ser ingrata, decisiva e, muitas vezes, cruelmente irônica
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Alvarenga Brasil
Estimados leitores, vocês devem ter notado que andei ausente por um determinado tempo. Justifico-me: passava por um período de entressafra criativa. Ou seja, é aquele momento em que a inspiração insiste em tirar férias, e não surge um tema relevante que seja digno de ser abordado. Mas, como havia prometido, no artigo anterior (há mais de um mês), em que tratei da intermitente busca pela sorte, neste texto de hoje, relatarei um fato que complementa as ideias a respeito da existência ou não da sorte. Afinal, a sorte é fruto do acaso ou alguns seres humanos já nascem predestinados à fortuna e ao sucesso? Por que uns navegam em mares turbulentos e outros nadam em águas calmas. Leiam o texto, abaixo, e tirem suas próprias conclusões.
Na verdade, o fato que passo a narrar, agora, tornou-se um episódio muito triste que marcou para sempre a vida de meus pais. Estávamos em 1979, no auge da “Loteria Esportiva”, ou a famosa “loteca”, como era conhecida por todos. Aliás, naquela época, esse jogo fazia o maior sucesso entre os apostadores, especialmente, porque aliava o gosto que o brasileiro tem por apostas à paixão nacional: os resultados dos campeonatos regionais.
Isso era muito natural porque, naquele tempo, o Brasil respirava futebol. Éramos a autêntica “pátria de chuteira”, no dizer do escritor Nelson Rodrigues; pois, tínhamos conquistado o tricampeonato, no México. Outro detalhe que assanhava a galera: essa loteria pagava uma grana boa aos felizardos que acertassem os trezes palpites da rodada. Ou seja, todo mundo queria fazer fortuna fácil, pois seria, como diziam os antigos, “a salvação da lavoura”. Então, todo mundo vivia sonhando com uma mala cheinha de dinheiro.
Além disso, sempre aos domingos, a “Zebrinha do Fantástico”, anunciava os resultados das partidas do fim de semana. Detalhe: só ganhava aquele que fizesse 13 pontos. Ou seja, o “gênio” que acertasse os palpites da rodada do fim de semana. Por ironia do destino, minha irmã, que era a mais velha de nós quatro, havia preenchido a cartela da tal loteca. Porém, infelizmente, acabou não fazendo a aposta na casa lotérica. Motivo: nossa mãe estava muito doente e precisava de medicamentos caros. Meu pai, aposentado, não dispunha, no momento, do dinheiro para comprar os remédios.
Diante dessa situação, nossa irmã, que já trabalhava, viveu uma dúvida terrível: ou apostava ou comprava os remédios necessários. Por amor à nossa mãe, que passava mal, decidiu pela compra dos medicamentos. Todo mundo sabe que os fármacos sempre foram caros neste país. Mas, naquele tempo, a coisa era bem pior, pois não havia os tais genéricos nem farmácias populares.
Pois bem, embora não tivesse feito o jogo, guardou a cartela com as apostas. E, no domingo, por pura curiosidade, ao conferir o resultado, viu que havia acertado em cheio os 13 pontos. Foi um momento muito tenso, em casa, porque ela, em tese, ganhou, mas não levou, já que não apostou, embora tenha salvado a vida de nossa mãe.
Porém, mesmo assim, ela ficou tão decepcionada que, depois disso, nunca mais quis saber de falar em jogos ou apostas. Pelo que sei, ninguém em casa conseguiu repetir tal feito. Meu pai, coitado, morreu na esperança de que a sorte lhe sorrisse uma única vez.
Fiz esse triste recorte memorialista para ilustrar que a busca pela sorte, muitas vezes, torna-se uma obsessão perniciosa na vida de muita gente, que gasta o que não tem para sentir, uma única vez, a brisa da sorte. Inclusive, há denúncias de que muitas famílias inscritas em programas assistenciais, do governo federal, chegam até a usar o minguado repasse do programa “Bolsa Família” em jogos, nas polêmicas plataformas virtuais de apostas, comprometendo suas economias.
O fato é que a sorte pode ser uma personagem ingrata e, às vezes, meio sádica. Afinal, nem sempre contempla aquele que faz de tudo para conquista-la. Às vezes, uma pessoa faz inúmeras apostas, lança mão de simpatias e mandingas, consulta “Pai de Santo” ou baralho cigano, para acertar as tão sonhadas seis dezenas da Mega-Sena da Virada; mas, nada acontece. Simplesmente, fica no vácuo, nem se quer recupera o valor investido. Mas, de repente, outro apostador, com uma única posta, sem fazer uma mínima prece, leva a bolada toda. Realmente, ninguém consegue explicar esse fenômeno.
Para concluir, chamo atenção para este momento, em que estamos às vésperas de mais uma Copa Mundial, em que o gosto pelo jogo e pelas apostas estarão em cena mais uma vez. Vocês podem ter certeza de que, além dos confrontos em campo, muitos torcedores vão participar dos tradicionais bolões em casas de apostas, a fim de não só torcer pela Seleção, como também ganhar um extra. Como dizem, a sorte está lançada. Ou seja, assim como os apostadores, os jogadores também estarão à mercê do acaso! Até a próxima!

- Pseudônimo de João Alvarenga (@prof_alvarenga), professor de Redação e consultor do idioma
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